Os Beatles são tão estabelecidos na história do rock, tão pressupostos em qualquer discussão sobre música contemporânea, que habitualmente acabam sendo taken for granted (perdoem o recurso, mas essa é uma expressão que se esquiva à tradução); "Ah, sim, é, têm os Beatles", a gente se lembra sem pensar muito a respeito. Ainda mais quando a maior parte do contato que se tem com eles por aí é com sua produção inicial, quando o seu "iêiêiê" ainda vinha afiliado ao rock descompromissado dos anos 50, que só estava preocupado com "curtir ao máximo antes que Eles soltassem a Bomba". Diga-se o que quiser, ir para a Índia fez um bem para os caras...
"Strawberry Fields Forever" é um bom exemplo disso. Em meio a essa pressuposição toda, a gente até lembra dela, mas sem pensar muito a respeito a gente corre o risco de tomá-la como mais uma baladinha bonitinha dos Beatles -- erro grosseiro, assim como achar que "Hey Jude" é mais uma baladinha de amor para a babe do momento. Então foi com gratidão que eu fui lembrado em pista pelo Edinho de que Strawberry Fields "existe" -- e uma música dessas fica exponencialmente mais intensa reverberando em uma pista de dança do que em um humilde som caseiro.
Fora todas as complexidades da mescla de rotações de gravações em velocidades diferentes e todas essas estripulias pelas quais essa música é famosa, acho que a força maior dela esteja nas estrofes, fora dos efeitos. A voz embargada de emoção de John Lennon (tanto nos Beatles quanto nas carreiras solo, não há Paul McCartney que fizesse frente a ele) com os violoncelos adicionando carga a essa emoção, e -- por que não? -- os próprios versos simples mas poderosos. "Living is easy with eyes closed / Misunderstanding all you see" dá aquela mesma elegante e sintética alfinetada que já discutimos em "Patterns" do Devo (E pasmem, meu comentário a respeito foi copiado por aí sem ser creditado. Quase ninguém me lê, e ainda assim eu sou plageado!). E "No one, I think, is in my tree", o que dizer sobre isso que não seja apenas reciclagem?
"Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone but it all works out
It doesn't matter much to me
(...)
No one, I think, is in my tree
I mean it must be high or low
That is you can't, you know, tune in but it's all right
That is I think it's not too bad
(...)
Always, no sometimes, think it's me
But you know I know when it's a dream
I think, er, no, I mean, er, yes, but it's all wrong
That is I think I disagree"
* * *
E eu fico pensando que o Pai-Nosso deveria ser reescrito "...assim como ofendemos aqueles que nos têm ofendido". Apesar do teor "olho por olho", dificilmente isso geraria mais violência e animosidade para a humanidade, e certamente nos pouparia muita culpa e angústia. Pois as pessoas continuam se ofendendo, agredindo, revidando e se vingando, essa litania não previne isso, apenas garante que elas o façam com culpa.
Mas aí a gente entra na grande audácia de padim Nietzsche, e eu fecho com ele, de dizer que "o Cristianismo inventou a culpa". O senso de reparação tanto do ofendido quanto do ofensor, que é atendido com a vingança e a punição, é inerente à homeostase humana, ele reestabelece o equilíbrio entre ato e consequência assim como o suor reestabelece a temperatura ideal do corpo. É nossa criação que nos leva a desaprender essa reparação, a sermos perdoados quando fazemos algo que cremos ser errado para daí ficarmos com a culpa do ato não reparado, e a não nos vingarmos de quem nos feriu pois ficaríamos culpados por fazê-lo, ambos lados da mesma história saindo perdendo pelo desequilíbrio assim perpetuado.
Todo escritor, em particular os existencialistas, que fala sobre crime (sim, e castigo) sabe dessa verdade, ao falar do criminoso que em seu íntimo anseia pela punição, para que possa se sentir reparado consigo mesmo. Tristes são as pessoas que não caem nessa categoria, que conseguem dissimular sua culpa e fingem para si mesmas não ter responsabilidade por seus atos -- novamente aquela recorrente "tirada de corpo fora".