"Soon I discovered that this rock thing was true
Jerry Lee Lewis was the Devil
Jesus was an architect previous to his career as a prophet
All of a sudden, I found myself in love with the world
So there was only one thing that I could do:
Was ding-a-ding-dang my dang-a-long ling-long"
Ministry -- "Jesus Built My Hotrod"
Há algo de malicioso ou perverso que me agrada nessa fala da abertura da música do Ministry. Mais do que uma mera profanação roqueira de temas sacros, se for pra gente levá-la a sério, é interessante e um tanto surreal o sujeito encontrar seu momento de grande esclarecimento e elevação espiritual desvendando o "Mistério" do rock para, imbuído dessa verdade cósmica, professar a manifestação máxima de sua elevação -- uma série de balbucios incompreensíveis.
Talvez seja a clara referência maçônica (Jesus como arquiteto) em um sujeito alcançando entendimentos profundos que me lembre o infame Dr. Gull de "From Hell" -- a original, que aprofunda significativamente o personagem, não o filme. Ou talvez seja simplesmente que o capítulo "Gull, ascending" nos apresente Jack, o Estripador, alcançando uma transcendência espiritual ainda mais bizarra, e haja algo de profundamente contrário a todo nosso senso de justiça ver uma figura tão infame alcançando a derradeira gratificação -- well, sort of.
De qualquer forma, fiquei com esse monólogo se repetindo sem motivo aparente na cabeça hoje, então como há de se respeitar essas coisas, vim falar sobre ele.
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Hoje eu estava lembrando de um dos meus momentos Andy Warhol, versão "tirando onda com a cara da histeria coletiva". Pois bem, quando eu trabalhava no Hotel Inter-Continental, a maior parte das bandas que vieram para o Rock in Rio 3 ficaram lá no hotel (tive que aturar a legião de sicofantes e asseclas que viajam com Axl Rose, Britney Spears e Backstreet Boys, mas R.E.M. que é bom, nada!), então é claro que a rua na frente do hotel ficou apinhada de pré-adolescentes desocupadas à espera de um eventual vislumbre de seus ídolos (não lembro realmente se era BSB ou alguma outra boy band, mas a gente sabe q não faz diferença), todas à flor da pele com sua sexualidade mal-elaborada, com sua idolatria pronta para reagir a qualquer coisa -- qualquer coisa. Trabalhando em um lounge no 15o andar, vendo toda aquela massa descerebrada lá embaixo, a iniciativa foi óbvia: fui para a varanda e dei o aceno mais plástico e cinematográfico que consegui com a mão, sendo recompensado com o urro agudo da turba indo ao delírio, e com dúzias de flashes de fotos sendo tiradas de mim...
Contando assim não parece nada demais, mas imaginem a cena e acreditem em mim, foi algo memorável. Até hoje eu rio pensando nas infelizes que conseguirem ampliar a foto tirada de seu ídolo se decepcionando ao descobrirem que era apenas eu... :)
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Dando uma passeada por sites com background e "por onde anda?" sobre o Sisters of Mercy, me deparei com uma frase bem inusitada sobre a situação atual da banda. Presos no impasse de trâmites contratuais com a gravadora, e cheios de poréns quanto a fazer shows ao vivo, eles andam meio que no limbo. Daí aparece a engraçadinha mas previsível piada de estar disponíveis para tocar em casamentos e barmizvahs, mas de repente a surpresa dadaísta: "The band is available for weddings, barmitzvahs and any discussion involving both Gary Glitter and Kierkegaard."
Eu estudei alguma coisa por alto de Kierkegaard, e escutei alguma coisa também por alto do Gary Glitter, mas qualquer que seja a relação entre os dois, e como é que eles foram entrar na história, definitivamente há coisas que é melhor não perguntar...