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quinta-feira, agosto 19, 2004

 

"Have you no sense of decency, sir?"

Eu ainda não falei por aqui de Michael Moore e George W. Bush, Jr., a dupla de antagonistas do maior embate demagógico dos últimos tempos. Também, faz sentido, ainda não vi "Tiros em Columbine" nem "Fahrenheit 9/11", nem li "Cara, Cadê Meu País?". Mas o MM está tão figurinha fácil na mídia que mesmo sem procurar você fica sabendo dele -- é que nem o último hit da Kelly Key ou do É O Tchan, mesmo que você não queira, você já ouviu na rua.

Ninguém sabe ao certo quais as intenções do MM. A gente sabe que ele é um demagogo por excelência, mas não qual o objetivo de sua demagogia: se é bem intencionadamente (yeah, right) conscientizar a população norte-americana e ajudar a despertá-la para sua realidade, ou se é jogar o mesmo jogo da figura de poder que ele antagoniza, para cair nas graças do povo e oportunamente se colocar como nova figura de poder. Ou talvez, ainda, não haja distinção alguma entre essas duas metas.

O que eu sei é que, bem intencionadamente ou não, o MM é uma figura extremamente perigosa, no pleno sentido dos "mascates da liberdade" descritos pelo Reich (não vou tentar sintetizar o conceito aqui; quem conhece concorde ou não, quem não conhece acredite na minha palavra ou ignore). O tom desse post fica mesmo semelhante ao do post anterior, inclusive no fato de que o Lula é outro bom exemplo de mascate da liberdade, primeiro aclamado como salvador, e depois gradualmente execrado pela mesma massa.

Mas não vou me aprofundar muito no mérito da atitude do MM; quero apenas apontar uma associação que eu percebi quanto a ele. Ela me parece crucial, e bastante óbvia, é bem provável que ela já tenha sido feita por aí e eu, desinformado, não tenha ficado sabendo. A questão é: lembram do já célebre discurso do MM no Oscar, pontuado com "What a shame, Mr. President!" (frase de efeito que parece meticulosamente lançada para virar palavra de ordem)? Ela é notícia velha, mas uma ruminação inconsciente qualquer ficou trabalhando e ontem me levou a perceber o que é que havia de familiar nela: ela é extremamente similar a outra frase célebre, "Have you no sense of decency, sir?".

Como ninguém aqui tem obrigação de saber história dos EUA (embora esse seja um daqueles episódios em que uma passagem da história norte-americana tem repercursões na história mundial), cabe aqui explicar. A década de 50 foi o ápice da temor anticomunista nos EUA, com a tendência desse povo à histeria coletiva sendo habilmente canalizada pelo Senador Joseph McCarthy na grande caça às bruxas que marcou o período, que ficou conhecido como "mccarthismo". De 50 a 54, o senador chefiou um comitê de invesitgações com o objetivo de expôr todos os comunistas "infiltrados" em qualquer órgão governamental, mas que também atacou civis, mais notadamente no cinema, com a criação de uma infame "Lista Negra" que condenou ao ostracismo centenas de escritores, cineastas, advogados, etc.. Notem que foi no embalo disso que o Reich dançou, tendo sido o único escritor na história americana a ter manuscritos originais queimados.

Em 54, McCarthy, na crista de sua onda inflamatória, decidiu voltar sua atenção para o exército americano. Em uma célebre sessão televisionada, McCarthy teve um embate com o conselheiro do exército Joseph Welsh. Tentando ganhar vantagem argumentativa sobre ele, McCarthy lançou mão de seu método habitual de difamar qualquer um que lhe fosse conveniente. O alvo era um auxiliar de escritório de Welsh queque sequer estava envolvido na investigação, mas havia sido membro de uma organização comunista anos antes. Após McCarthy expôr o rapaz, Welsh, exasperado, respondeu: "Let us not assassinate this man further, Senator, you've done enough. Have you no sense of decency, sir? At long last, have you left no sense of decency?".

Essa audiência marcou o início da queda de MCarthy, que meses depois foi condenado pelo Congresso por abuso de poder. Qualquer que fosse a agenda pessoal de Welsh, ele ficou prestigiado por confrontar o comitê e denunciar sua imoralidade. Pois bem, voltando ao MM, vejam como os dois cenários são iguais: um republicano demagogo na crista da onda da opinião pública, jogando com o medo da população americana para alimentar uma caça às bruxas de seus interesses, e no meio disso surge uma voz corajosa que ousa falar contra a imoralidade e falta de limites de sua agenda.

A frase de Welsh é um marco amplamente presente no imaginário e cultura americanos como um símbolo de heroísmo pela liberdade. A minha pergunta é: quão deliberadamente MM buscou parafraseá-la em seu discurso para aproveitar a similaridade de cenário e e se identificar com esse símbolo junto ao povo americano? "Have you no sense of decency, sir?" e "What a shame, Mr. President!", além do contexto, comparado acima, reparem como a forma e a idéia são as mesmas: uma interpelação emotiva, questionando respeitosamente uma figura de poder, levando a questão para uma esfera mais pessoal do senso íntimo de certo e errado, e na forma de um apelo que qualquer "joão ninguém" faria, de grande apelo e identificação junto ao povo. Mais do que uma mera exclamação de um ponto de vista, essa frase parece ser um minucioso trabalho de retórica, o que dá a MM uma posição totalmente diversa do "opinador sincero e isento" que ele conquistou junto à opinião pública.

Temos um embate entre dois demagogos, George Bush no poder e MM na oposição. É um erro pensar no MM como porta voz de algo diferente, quando ele "combate fogo com fogo", usando as armas do inimigo. Como eu disse no post anterior, muito mais perigoso é aquele que se mostra como porta-voz da liberdade mas na verdade veladamente manipula o povo para seus fins. MM se apresenta como santo isento, e a opinião pública compra esse peixe, sem se dar conta de que, muito mais profunda e habilmente do que George Bush, ele manipula e inflama sua percepção para fins próprios. Tendo tido o mérito de erguer sua voz contra Bush quando ninguém ousava fazê-lo, MM ganhou um status que confere validade e razão automáticas a tudo que diga -- uma posição de isenção extremamente perigosa, acima do bem e do mal, que ninguém deveria deter.

Para a referência histórica, uma busca por "have you no sense of decency" no Google gera vários resultados interessantes: a transcrição na íntegra da audiência McCarthy-Welsh; a transcrição e mp3 apenas dos minutos pertinentes à citação; e um artigo da CNN sobre o efeito social das audiências.

Como música do dia, a primeira vez que eu ouvi a frase de Welsh, "Exhuming McCarthy", do R.E.M.:

"You're beautiful more beautiful than me
You're honorable more honorable than me
Loyal to the Bank of America

It's a sign of the times, it's a sign of the times
You're sharpening stones, walking on coals
To improve your business acumen
Sharpening stones, walking on coals
To improve your business acumen

Vested interest, united ties
Landed gentry rationalize
Look who bought the myth
By jingo, buy America

Enemy sighted, enemy met
I'm addressing the realpolitik
Look who bought the myth
By jingo, buy America

'Let us not assassinate this man further Senator,
you've done enough. Have you no sense of decency, sir?
At long last, have you left no sense of decency?'


We're sharpening stones, walking on coals
To improve your business acumen.
Sharpening stones, walking on coals,
To improve your business acumen.

Enemy sighted, enemy met
I'm addressing the realpolitik
You've seen start and you've seen quit
(I'm addressing the table of content)
I always thought of you as quick
Exhuming McCarthy
(Meet me at the book burning)
Exhuming McCarthy
(Meet me at the book burning)"


* * *

Sem nenhuma relação, apenas aproveitando o embalo, confiram esse artigo no Blogger Knowledge pleiteando a necessidade de se escrever de uma maneira minimamente correta em blogs. É em inglês, mas sua relevância não é específica para esta ou aquela língua. Delicioso.


posted by Manhaes at 4:59 PM
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