"Be glad of first-time nerves
For fear gives courage wings"
Tanta coisa se fala sobre medo por aí, mas tão pouco de útil! De comerciais de pasta de dente a discussões existenciais, para todo lado que você se vire você se depara com discursos de superação, de sobrepor todos os limites, e acima de tudo de sempre vencer seus medos. Mas os medos não estão lá para serem vencidos!
E não é uma mera questão da mídia tentanto impor valores, pois ela está apenas chovendo no molhado e criando slogans em cima de valores correntes e estabelecidos. O medo é sempre tido como algo necessariamente prejudicial e nocivo, uma barreira a ser transposta, uma força a ser combatida. Ou seja, ele é reificado e projetado para fora, visto como algo externo e alheio a nós. Com todo o distanciamento e alienação de nossos próprios corpos e emoções que é implícito em nossos valores, fica fácil não percebermos como nosso algo que surge, existe e faz parte de nós!
Fundamentalmente, o medo é um de nossos maiores aliados, um dos mais básicos instintos de sobrevivência sem o qual não existiria o ser humano. É o medo que desencadeia a tão essencial resposta de luta-ou-fuga perante qualquer forma de ameaça. Por a maioria das ameaças em nosso cotidiano não ter a imediatez de um predador em nosso encalço, caímos no erro de descartar o medo resultante como uma tola e desnecessária frivolidade. Mas assim como "ameaça" para nós se tornou algo mais amplo e indireto, o mesmo aconteceu com "sobrevivência": da mesma forma que vemos como ameaçadoras situações sociais que não põem em risco nossa sobreviência per se, nós passamos a buscar qualidade de vida para além da mera sobrevivência. Ignorarmos ou negarmos cotidianamente os medos que sentimos prejudica diretamente tal qualidade de vida.
Se virmos então o medo da maneira habitual, inflado e pervertido ao ponto de se tornar uma ameaça que nos confronta, só nos resta duas maneiras de lidar com ele, ambas igualmente cegas: "encarar" a ameaça e lutar contra ela buscando uma superação maniqueísta; ou sucumbir sob ela, paralizados sob seu domínio.
Porém, o medo, que em si não é bom nem mau, não deveria ser paralizante, e sim instigante. O medo é um precioso calibre que, quando devidamente consultado, nos diz nossas capacidades e limites, nos diz até onde podemos ir, ou seja, nos dá nossas medidas, delineando (e preservando) nossa humanidade. Por "devidamente" me refiro a trazer o medo para junto de nós, perceber nele não um adversário, mas um aliado. Ter o medo em mãos, não como um gesto de vitória sobre um inimigo derrotado, mas como a aceitação e o subseqüente emprego legítimo de uma parte nossa que vinha sendo neglicenciada. Com o medo ao nosso lado, podemos dialeticamente não ter medo no que estamos fazendo e seguir adiante, pois o medo nos acenará ao chegarmos no limite. Pois nós temos limites, é claro, ao contrário do que prega uma cultura pós-capitalista que, em nome de um suposto crescimento pessoal, quer que todos se empenhem em buscar produzir mais e mais, conforme os valores de um positivismo anglo-americano. A negação de tais limites (ou seja, o distanciamento de nosso medo) é responsável por grande parte das mazelas da vida moderna, com as pessoas se mortificando e pervertendo em nome de uma suposta superação.
Exemplificando esse calibre, ao andar de moto é prejudicial manter um medo que nos proporcione um saudável princípio de realidade? Pois era o próprio medo de andar de moto que me dava a tranqüilidade para andar de moto e ainda desfrutar de tal experiência, de fato o medo gerava auto-confiança.
Mas não falo de se ater ao medo para ficar apenas em águas rasas e serenas, com medo de arriscar a correnteza (essa seria a visão do medo-inimigo tendo dominado). Pois ao mesmo tempo que pode ser essa "margem de segurança", o medo pode também ser força motriz a nos impulsionar. Lembrem-se, o medo não gera (ou não deveria) gerar paralizia e estagnação, mas sim luta ou fuga, ou seja, movimento. Certa vez eu li um livro de fantasia no qual o protagonista, um exímio e renomado espadachim, discorria sobre o "medo inspirador". Ele dizia como era não a bravura, mas sim o medo que o fizera vencer todas as suas lutas, que mesmo toda a sua experiência não removera seu medo, e acima de tudo que tinha certeza de que o dia em que ele deixasse de ter medo seria o dia em que ele seria derrotado.
Como eu disse antes, o medo é um dos delimitadores de nossa humanidade. Real ou simbolicamente, ao nos defrontarmos com algo amedrontador estamos nos defrontando com nossa mortalidade, o limite de nossa vida: ou seja, quando sentimos medo, vislumbramos a totalidade das dimensões de nossa vida, nos sentimos vivos. Fazer bungee-jump, por exemplo, não foi um domínio sobre meu medo, eu tremia como vara verde antes de pular e dava graças a deus por estar de estômago vazio. Porém, sem esse tremor visceral de pavor (lançar-se em queda livre de uma altura fatal, não há conhecimento intelectual que se sobreponha à intuição de que você vai morrer na queda) não seria possível ter o tremor de júbilo correndo pelo corpo após o pulo. Nesse sentido, o medo não se difere em nada da excitação sexual, ambos são acúmulos de tensão que precedem descargas prazerosas.
Pois enfim, revejamos nossos medos, e consideremos o que podemos superar ao não superá-los. Na mitologia grega, a Medusa era de fato uma importante parte de Perseu, que após tê-la "matado" passou a tê-la consigo para ajudá-lo contra seus inimigos -- ou seja, ele não a matou, ele a "recrutou". Quando nos defrontamos com algum medo paralizante e aniquilador, o problema não é o medo, mas sim o que fazemos dele, como o transformamos em algo mau. E se eu abri esse post com "Spirits", a poética ode do Bauhaus ao teatro que fala sobre um medo que dá asas à coragem e eleva a alma às alturas, encerremos então com mais Bauhaus, em sua faceta dub/ska, com "In Fear of Fear", que por sua vez comenta sobre o confronto com esse outro medo "mau":
"You fear the lesson
And fear to walk
And fear to pass on
Your fear to talk
The teacher was feared
Your parents too
Then you became
The fear of you
Look to yourself
Climb over the wall
And see behind
That you're not so small
Then you won't blame fear
When competing's too much
As you fall on your back
As you fail to touch
And I say to you
When your fear is strong
When you fear your life
Then your fear is wrong
Set free your past
So shredding the skin
Then you won't fear
The fear of sin